Este blog tem por finalidade, homenagear consagrados poetas e escritores e, os notáveis poetas da internet.
A todos nosso carinho e admiração.

Clube de Poetas









segunda-feira, 30 de março de 2015

MARIA BRAGA HORTA


MARIA BRAGA HORTA
(1913 - 1980)
 

Maria Braga Horta nasceu na Fazenda Boa Esperança, no Arraial de Bom Jesus da Cachoeira Alegre, Município de Muriaé, Minas Gerais, em 17 de fevereiro de 1913 e faleceu em Brasília, dia 6 de abril de 1980. Aos 12 anos de idade, começou a escrever versos e, aos 15, seus primeiros sonetos - o marco mais alto de suas obras.
Em 1930, iniciou as publicações de suas poesias  no Jornal Manhumirim, e logo em jornais e revistas do Espírito Santo, do Rio de Janeiro e outros Estados.
Em 1934, casou-se com o advogado e poeta Anderson de Araujo Horta, com quem teve cinco filhos - Anderson, Arlyson, Flávio, Glorinha e Goiano. O namoro começou antes que ela completasse vinte anos, e com ele estabeleceu-se um diálogo poético. Os primeiros versos de amor partiram do namorado, com um soneto de parabéns pelo aniversário da amada. Os poemas de Maria Braga Horta nesse diálogo constam do capítulo "Nossa História de Amor" , de seu livro "Caminho de Estrelas", publicado em 1996, após sua morte, pela Massao Ohno Editora, sob organização do filho também poeta, Anderson Braga Horta. 



Com o marido Anderson de Araújo Horta, peregrinou por uma dezena se cidades de Minas Gerais e Goiás. Teve seu soneto "Legado" incluído por Carlos Drummond de Andrade em "Uma Pedra no Meio do Caminho". Figurou em antologias poéticas do 2º Torneio Poético da Poesia Falada (Niterói), de Joanyr de Oliveira, de Aparício Fernandes e de Nilto Maciel, no volume 2 de Escritores Brasileiros ao Vivo, Danilo Gomes, em Antologia de Contos de Napoleão Valadares e em seu dicionário de Escritores de Brasília.
Detentora de vários prêmios, alcançou o 1º lugar no Primeiro Concurso de Poesia da Fundação de Assistência aos Garimpeiros (Brasília, 1971).



 EXORTAÇÃO
 
Alma inquieta e sem rumo, sem morada
dentro do próprio ser, que te acontece?
Para onde vais? Que buscarás na estrada
onde o esplendor do sol desaparece?
 
Que desejas colher nessa encantada
terra de sonhos? Que dourada messe
supões haver na senda extraviada
onde nem mesmo o sonho permanece?
 
Olha em torno de ti. Volta e procura
em ti mesma o caminho da ventura
que andas buscando sem saber se existe...
 
Encontrando-te, enfim, terás a glória
de tornar a existência transitória
mais serena, mais terna, e menos triste.
 
** ** **
 
LIRISMO
 
Fale um outro poeta mais austero
de temas, em geral, de alto horizonte,
ou imite Camões, Virgílio, Homero,
buscando a inspiração em nobre fonte.
 
Que eu não tento transpor tão longa ponte
e pemetrar num mundo tão severo.
Como Kháyyám, Gonzaga e Anecreonte,
só canto o amor, só dele a glória espero.
 
"Ser poeta é ser triste." Esta legenda
vem na fronte da porta e é como prenda
que lhe fazem as musas no batismo.
 
Desse prêmio, porém, não tive a parte,
e me faltando enredo, engenho a arte,
falo de amor no mais banal lirismo.




 Eliana Ellinger
 
Fonte de pesquisa:
 

ANTERO DE QUENTAL



ANTERO DE QUENTAL
(1842 - 1891)
 
 
Antero Tarquínio de Quental nasceu em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, nos Açores, Portugal. Filho do combatente Fernando de Quental e Ana Guilhermina da Maia, iniciou seus estudos em Ponta Delgada e, com 16 anos, foi estudar Direito em Coimbra.

Foi poeta e filósofo português, um verdadeiro líder intelectual do Realismo em  sua pátria. Dedicou-se à reflexão dos grandes problemas filosóficos e sociais de seu tempo e contribuiu para a implantação das idéias renovadoras da geração de 1870.




Em 1861 publicou seu primeiro livro, "Sonetos de Antero". Em 1865, um grupo de estudantes da Universidade de Coimbra, critica as velhas idéias do Romantismo, o que fez surgir uma polêmica entre a velha e a nova geração de poetas. Essa manifestação originou-se de um texto do poeta romântico António Feliciano de Castilho, no qual ele criticava as novas idéias literárias de Antero de Quental e Teófilo Braga.
Antero responde de maneira violenta, escrevendo uma carta aberta que foi divulgada com o título de "Bom senso e bom gosto". Nela, Antero acusa Castilho de obscurantismo e defende a liberdade de pensamento dos novos escritores.





 Nesse mesmo ano, Antero de Quental publica  "Odes Modernas". Em 1886. foi morar em Lisboa, onde trabalhou numa tipografia. Em 1867 foi morar em Paris, regressando para Lisboa em 1868. Em 1869, funda o jornal "A República" . Em 1871, junto com Eça de Queirós, Oliveira Martins e Ramalho Ortigão, planeja uma série de "Conferências Democráticas", que eram realizadas no Cassino Lisboense.
Antero de Quental expressa em seus sonetos a sua inquietação religiosa e metafísica, constituindo a parte mais importante de sua obra  "Sonetos de Antero" (1861), "Primaveras Românticas" (1872), "Sonetos Completos" (1886), "Raios de Extinta Luz" (1892), entre outros de grande sucesso até os dias de hoje.
É considerado, ao lado de Bocage e Camões, um grande sonetista da literatura portuguesa.
Antero de Quental, sofrendo de depressão, suicida-se no dia 11 de setembro de 1891, em Ponta Delgada, sua terra natal.


NIRVANA
 
Viver assim: sem ciúmes, sem saudades,
Sem amor, sem anseios, sem carinhos,
Livre de angústias e felicidades,
Deixando pelo chão rosas e espinhos;
 
Poder viver em todas as idades,
Poder andar por todos os caminhos,
Indiferente ao bem e às falsidades,
Confundindo chacais e passarinhos;
 
Passear pela terra e achar tristonho
Tudo que em torno se ve, nela espalhado,
A vida olhar como através de um sonho;
 
Chegar onde eu cheguei, subir à altura
Onde agora me encontro - é ter chegado
Aos extremos da Paz e da Ventura!
 
** ** **


HINO À RAZÃO
 
Razão, irmã do Amor e da Justiça,
Mais uma vez escuta a minha prece
É a voz dum coração que te apetece,
Duma alma livre, só à ti submissa.
 
Por ti é que a poeira movediça
De astros e sóis e mundos permanece,
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra viça.
 
Por ti, na arena trágica, as nações
Buscam a liberdade, entre clarões,
E os que olham o futuro e cismam, mudos
 
Por ti, podem sofrer e não se abatem,
Mãe dos filhos robustos, que combatem
Tendo o teu nome escrito em seus escudos!
 
 
** ** **
 
Eliana Ellinger
 
Fontes de pesquisa:
 
 

ANDERSON DE ARAÚJO HORTA


ANDERSON DE ARAÚJO HORTA
(1906 - 1985)
 
 
Nasceu em Tombos, Zona da Mata mineira, em 30 de novembro de 1906. Estudou na cidade natal,em Leopoldina e em Carangola, diplomou-se em 1931 pela Academia de Comércio de Juiz de Fora e, em 1937 pela Faculdade de Direito da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro.
Casou-se em Manhumirim, Minas Gerais, com a poetisa Maria Braga, cuja biografia e poesias publicamos na edição anterior.
Antes e depois de formado, Anderson Horta lecionou Inglês, Geografia e História, em Carangola, em Goiás - no Liceu Oficial - e no Rio de Janeiro. Em 1945, foi chamado da antiga Vila Boa de Goiás por Pedro Ludovico para ocupar o cargo de Primeiro-Promotor Público em Goiânia.
 

Em 1947, voltou ao Estado natal, onde continuou advogando. Em 1956, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde ficou ora advogando, ora lecionando. Em 1964 transferiu-se para Brasília, onde faleceu em 16 de junho de 1985.
Anderson de Araújo Horta deixou um romance inédito e grande número de poemas, alguns deles publicados em jornais, revistas e antologias.
Em 2004 as Edições Galo Branco, do Rio de Janeiro, publicou seu livro de poesias "Invenção do Espanto" .


SOL COM CHUVA
 
Quando você nasceu, eu tive um choque imenso,
pois não podia pensar
que você fosse fazer um berreiro daqueles!
 
Eu estava no quarto esperando você,
como se espera, paradoxalmente,
um desconhecido querido.
 
Eu era moço. Não tinha esperiência alguma.
E, por isso, pensei que você fosse nascer
como menino bem comportado...
 
Mas agora já sei que os homens nascem
gritando e reclamando,
com pressa de viver.
(Porque têm pressa de tudo...)
 
O fato é que quando vi e ouvi você
tomar posse do mundo,
não pude me furtar às lágrimas.
 
E desde então qprendi que as grandes,
as extraordinárias alegrias
são como o sol com a chuva...
 
 
** ** **
 
DESCOBERTA
 
Neste lar, nosso amor, pobre de arneses,
foi prenúncio feliz de um grande dia,
E refletia-se em nós dois, às vezes,
calmo porto que Deus nos conduzia.
 
Você nasceu nos meios montanhenses,
tendo o brasão apenas da Poesia...
sem lanças, sem broquéis e sem paveses,
mas tendo o grande amor dos pais por guia!
 
Quando você nasceu, nasceu gritando,
como quem toma posse, de repemte,
de uma terra inda há pouco conquistada...
 
De modo que eu me vi também chorando,
sem saber traduzir corretamente
a sua primeiríssima balada!
 




sábado, 14 de março de 2015

DIA NACIONAL DA POESIA




O Dia Nacional da Poesia no Brasil, foi criado  em homenagem a Antônio Frederico de Castro Alves

Antônio Frederico de Castro Alves foi um importante poeta brasileiro do século XIX. Nasceu na cidade de Curralinho (Bahia) em 14 de março de 1847.



No período em que viveu (1847-1871), ainda existia a escravidão no Brasil. O jovem baiano, simpático e gentil, apesar de possuir gosto sofisticado para roupas e de levar uma vida relativamente confortável, foi capaz de compreender as dificuldades dos negros escravizados.



Manifestou toda sua sensibilidade escrevendo versos de protesto contra a situação a qual os negros eram submetidos. Este seu estilo contestador o tornou conhecido como o "Poeta dos Escravos".



Aos 21 anos de idade, mostrou toda sua coragem ao recitar, durante uma comemoração cívica, o "Navio Negreiro". A contra gosto, os fazendeiros ouviram-no clamar versos que denunciavam os maus tratos aos quais os negros eram submetidos.



Além de poesia de caráter social, este grande escritor também escreveu versos líricos-amorosos, de acordo com o estilo de Vítor Hugo. Pode-se dizer que Castro Alves foi um poeta de transição entre o Romantismo e o Parnasianismo.



Este notável escritor morreu ainda jovem, em 6 de julho de 1871 em Salvador, antes mesmo de terminar o curso de Direito que iniciara, pois, vinha sofrendo de tuberculose desde os seus 16 anos.



Apesar de ter vivido tão pouco, este artista notável deixou livros e poemas significativos.



Poesias de Castro Alves:


- Espumas Flutuantes, 1870


- A Cachoeira de Paulo Afonso, 1876


- Os Escravos, 1883



- Hinos do Equador, em edição de suas Obras Completas (1921)


- Navio Negreiro (1869)


- Tragédia no lar


Fonte de  Pesquisa     http://www.suapesquisa.com/

Marilda Conceição



Navio Negreiro

Castro Alves


'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço 

Brinca o luar - dourada borboleta; 
E as vagas após ele correm... cansam 
Como turba de infantes inquieta. 

'Stamos em pleno mar... Do firmamento 
Os astros saltam como espumas de ouro... 
O mar em troca acende as ardentias, 
- Constelações do líquido tesouro... 

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos 
Ali se estreitam num abraço insano, 
Azuis, dourados, plácidos, sublimes... 
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?... 

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas 
Ao quente arfar das virações marinhas, 
Veleiro brigue corre à flor dos mares, 
Como roçam na vaga as andorinhas... 

Donde vem? onde vai? Das naus errantes 
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço? 
Neste saara os corcéis o pó levantam, 
Galopam, voam, mas não deixam traço. 

Bem feliz quem ali pode nest'hora 
Sentir deste painel a majestade! 
Embaixo - o mar em cima - o firmamento... 
E no mar e no céu - a imensidade! 

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa! 
Que música suave ao longe soa! 
Meu Deus! como é sublime um canto ardente 
Pelas vagas sem fim boiando à toa! 

Homens do mar! ó rudes marinheiros, 
Tostados pelo sol dos quatro mundos! 
Crianças que a procela acalentara 
No berço destes pélagos profundos! 

Esperai! esperai! deixai que eu beba 
Esta selvagem, livre poesia 
Orquestra - é o mar, que ruge pela proa, 
E o vento, que nas cordas assobia... 
.......................................................... 

Por que foges assim, barco ligeiro? 
Por que foges do pávido poeta? 
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira 
Que semelha no mar - doudo cometa! 

Albatroz! Albatroz! águia do oceano, 
Tu que dormes das nuvens entre as gazas, 
Sacode as penas, Leviathan do espaço, 
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas. 


II


Que importa do nauta o berço, 
Donde é filho, qual seu lar? 
Ama a cadência do verso 
Que lhe ensina o velho mar! 
Cantai! que a morte é divina! 
Resvala o brigue à bolina 
Como golfinho veloz. 
Presa ao mastro da mezena 
Saudosa bandeira acena 
As vagas que deixa após. 

Do Espanhol as cantilenas 
Requebradas de langor, 
Lembram as moças morenas, 
As andaluzas em flor! 
Da Itália o filho indolente 
Canta Veneza dormente, 
- Terra de amor e traição, 
Ou do golfo no regaço 
Relembra os versos de Tasso, 
Junto às lavas do vulcão! 

O Inglês - marinheiro frio, 
Que ao nascer no mar se achou, 
(Porque a Inglaterra é um navio, 
Que Deus na Mancha ancorou), 
Rijo entoa pátrias glórias, 
Lembrando, orgulhoso, histórias 
De Nelson e de Aboukir.. . 
O Francês - predestinado - 
Canta os louros do passado 
E os loureiros do porvir! 

Os marinheiros Helenos, 
Que a vaga jônia criou, 
Belos piratas morenos 
Do mar que Ulisses cortou, 
Homens que Fídias talhara, 
Vão cantando em noite clara 
Versos que Homero gemeu ... 
Nautas de todas as plagas, 
Vós sabeis achar nas vagas 
As melodias do céu! ... 


III


Desce do espaço imenso, ó águia do oceano! 
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano 
Como o teu mergulhar no brigue voador! 
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras! 
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ... 
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror! 


IV


Era um sonho dantesco... o tombadilho 
Que das luzernas avermelha o brilho. 
Em sangue a se banhar. 
Tinir de ferros... estalar de açoite... 
Legiões de homens negros como a noite, 
Horrendos a dançar... 

Negras mulheres, suspendendo às tetas 
Magras crianças, cujas bocas pretas 
Rega o sangue das mães: 
Outras moças, mas nuas e espantadas, 
No turbilhão de espectros arrastadas, 
Em ânsia e mágoa vãs! 

E ri-se a orquestra irônica, estridente... 
E da ronda fantástica a serpente 
Faz doudas espirais ... 
Se o velho arqueja, se no chão resvala, 
Ouvem-se gritos... o chicote estala. 
E voam mais e mais... 

Presa nos elos de uma só cadeia, 
A multidão faminta cambaleia, 
E chora e dança ali! 
Um de raiva delira, outro enlouquece, 
Outro, que martírios embrutece, 
Cantando, geme e ri! 

No entanto o capitão manda a manobra, 
E após fitando o céu que se desdobra, 
Tão puro sobre o mar, 
Diz do fumo entre os densos nevoeiros: 
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros! 
Fazei-os mais dançar!..." 

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . . 
E da ronda fantástica a serpente 
Faz doudas espirais... 
Qual um sonho dantesco as sombras voam!... 
Gritos, ais, maldições, preces ressoam! 
E ri-se Satanás!... 


V


Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus! 
Se é loucura... se é verdade 
Tanto horror perante os céus?! 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
De teu manto este borrão?... 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão! 

Quem são estes desgraçados 
Que não encontram em vós 
Mais que o rir calmo da turba 
Que excita a fúria do algoz? 
Quem são? Se a estrela se cala, 
Se a vaga à pressa resvala 
Como um cúmplice fugaz, 
Perante a noite confusa... 
Dize-o tu, severa Musa, 
Musa libérrima, audaz!... 

São os filhos do deserto, 
Onde a terra esposa a luz. 
Onde vive em campo aberto 
A tribo dos homens nus... 
São os guerreiros ousados 
Que com os tigres mosqueados 
Combatem na solidão. 
Ontem simples, fortes, bravos. 
Hoje míseros escravos, 
Sem luz, sem ar, sem razão. . . 

São mulheres desgraçadas, 
Como Agar o foi também. 
Que sedentas, alquebradas, 
De longe... bem longe vêm... 
Trazendo com tíbios passos, 
Filhos e algemas nos braços, 
N'alma - lágrimas e fel... 
Como Agar sofrendo tanto, 
Que nem o leite de pranto 
Têm que dar para Ismael. 

Lá nas areias infindas, 
Das palmeiras no país, 
Nasceram crianças lindas, 
Viveram moças gentis... 
Passa um dia a caravana, 
Quando a virgem na cabana 
Cisma da noite nos véus ... 
... Adeus, ó choça do monte, 
... Adeus, palmeiras da fonte!... 
... Adeus, amores... adeus!... 

Depois, o areal extenso... 
Depois, o oceano de pó. 
Depois no horizonte imenso 
Desertos... desertos só... 
E a fome, o cansaço, a sede... 
Ai! quanto infeliz que cede, 
E cai p'ra não mais s'erguer!... 
Vaga um lugar na cadeia, 
Mas o chacal sobre a areia 
Acha um corpo que roer. 

Ontem a Serra Leoa, 
A guerra, a caça ao leão, 
O sono dormido à toa 
Sob as tendas d'amplidão! 
Hoje... o porão negro, fundo, 
Infecto, apertado, imundo, 
Tendo a peste por jaguar... 
E o sono sempre cortado 
Pelo arranco de um finado, 
E o baque de um corpo ao mar... 

Ontem plena liberdade, 
A vontade por poder... 
Hoje... cúm'lo de maldade, 
Nem são livres p'ra morrer. . 
Prende-os a mesma corrente 
- Férrea, lúgubre serpente - 
Nas roscas da escravidão. 
E assim zombando da morte, 
Dança a lúgubre coorte 
Ao som do açoute... Irrisão!... 

Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus, 
Se eu deliro... ou se é verdade 
Tanto horror perante os céus?!... 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
Do teu manto este borrão? 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão! ... 


VI


Existe um povo que a bandeira empresta 
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... 
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria!... 
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, 
Que impudente na gávea tripudia? 
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto 
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ... 

Auriverde pendão de minha terra, 
Que a brisa do Brasil beija e balança, 
Estandarte que a luz do sol encerra 
E as promessas divinas da esperança... 
Tu que, da liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança 
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha!... 

Fatalidade atroz que a mente esmaga! 
Extingue nesta hora o brigue imundo 
O trilho que Colombo abriu nas vagas, 
Como um íris no pélago profundo! 
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga 
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! 
Andrada! arranca esse pendão dos ares! 
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

segunda-feira, 9 de março de 2015

ANA LUIZA AMARAL



ANA LUIZA AMARAL
 
 
Ana Luiza Amaral nasceu em Lisboa e vive, desde os nove anos, em Leça da Palmeira. Tem um doutoramento sobre a poesia de Emily Dickinson e as suas áreas de investigação são Poéticas Comparadas, Estudos Feministas e Estudos Queer. É professora associada da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde integra também a direção do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa. Tem publicações acadêmicas em Portugal e no estrangeiro. É autora, com Ana Gabriela Macedo, do Dicionário de Crítica Feminista (Porto: Afrontamento, 2005) e preparou a edição anotada de Novas Cartas Portuguesas (1972) de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa.
Ana Luiza está representada em inúmeras antologias portuguesas e estrangeiras, seus poemas lidos em vários países, como Brasil, Espanha, Irlanda, Rússia, Estados Unidos da América, Alemanha, Romenia, Polônia, Suécia, Holanda, China, México, Colômbia e Argentina.



Em torno de seus livros de poesia e infantís, foram levados à cena espetáculos de teatro e leituras encenadas, como O Olhar Diagonal das Coisas, A História da Aranha Leopoldina, Próspero Morreu ou Amor aos Pedaços.
Em 2007, venceu o Prêmio Literário Casino da Pávoa, atribuido no âmbito do encontro de escritores de expressão ibérica Correntes d'Escritores na Pávoa de Vaizim, com a obra A Génese do Amor. No mesmo ano, foi galardoada na Itália com o Prêmio de Poesia Giuseppe Acerbi. 




Ana Luiza também recebeu, em 2008, o Grande Prêmio de Poesia da APE (Associação Portuguesa de Escritores, com seu livro Entre Dois Rios e Outras Noites.
Em 2014, a Editora Peter Lang, do Reino Unido, edita um livro de ensaios reunidos. 

ESPAÇOS
 
As nuvens não se rasgaram
nem o sol: só a porta
do meu quarto
 
A abrir-se noutras
portas dando para outros
quartos e um corredor ao fundo
 
Não havia janelas nem
silêncios: sinfonias por dentro
a rasgar o silêncio
 
A porta do meu quarto
já nem porta: madeiramento
para o fogo.
 

******


NAVEGAÇÕES DOENTES
 
Tenho os sintomas todos:
navegam-me fluidos
e o devaneio em barcos de desejo.
 
Os sons de trovoada
mesmo tapando ouvidos,
esclerótica paixão que não domino.
 
Tenho os sintomas todos
e assim me reconheço
acamada, incurável: na parede do fundo
navegante, os barcos.
 



Eliana (Shir) Ellinger
 

Fontes de Pesquisa:
 
 

ALEXANDRE O'NEILL


ALEXANDRE O'NEILL
(1924 - 1986)
 
 

Alexandre Manuel Vahía de Castro O'Neill de Bulhões, poeta português, descendente de irlandeses nasceu em Lisboa. Autodidata, fez os estudos liceais, frequentou a Escola Náutica (Curso de Pilotagem), trabalhou na Previdência, no ramo dos seguros, nas bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian, e foi técnico de publicidade. Durante algum tempo, publicou uma crônica semanal no Diário de Lisboa.
Datam do ano de 1947 duas cartas de O'Neill que demonstram o seu interesse pelo surrealismo, dizendo numa delas (de Outubro) possuir já os Manifestos de Breton e a Histoire du Surrealisme de M. Nadeau. Nesse mesmo ano, O'Neill, Cesariny e Mário Domingues começam a fazer experiências a nível da linguagem, na linha do surrealismo, sobretudo com os seus Cadáveres Esquisitos e Diálogos Automáticos, que conduziam ao desmembramento do sentido lógico dos textos e à pluralidade de sentidos. Por volta de 1948, fundou com o poeta Cesariny, com José-Augusto França, António Pedro e Vespeira, o Grupo Surrealista de Lisboa.
Em 1949, tiveram lugar as principais manifestações do movimento surrealista em Portugal, como a Exposição do Grupo Surrealista de Lisboa. Nessa ocasião, Alexandre O'Neill publicou A Ampola Miraculosa, constituída por 15 imagens sem qualquer ligação e respectivas legendas, sem que entre imagem e legenda se estabelecesse um nexo lógico, o que torna altamente irônico o subtítulo da obra, «romance». Esta obra poderá ser considerada paradigmática do surrealismo português. Foram lançados, ainda nesse ano, os primeiros números dos Cadernos Surrealistas.



 Depois de uma fase de ataques pessoais entre os dois grupos (1950-52), que atingiram sobretudo José-Augusto França, e após a morte de António Maria Lisboa, extinguiram-se os grupos surrealistas, continuando todavia o surrealismo a manifestar-se na produção individual de alguns autores, incluindo o próprio Alexandre O'Neill, que se demarcara, já em 1951, no Pequeno Aviso do Autor ao Leitor, inserido em Tempo de Fantasmas. Nessa mesma obra, sobretudo na primeira parte, Exercícios de Estilo (1947-49), a influência do surrealismo manifesta-se em poemas como Diálogos Falhados, Inventário ou A Central das Frases e na insistência em motivos comuns a muitos poetas surrealistas, como a bicicleta e a máquina de costura. Na segunda parte da obra, Poemas (1950-51), essa influência, embora ainda presente, é atenuada, como em No Reino da Dinamarca (1958) e Abandono Vigiado (1960).



Depois de uma fase de ataques pessoais entre os dois grupos (1950-52), que atingiram sobretudo José-Augusto França, e após a morte de António Maria Lisboa, extinguiram-se os grupos surrealistas, continuando todavia o surrealismo a manifestar-se na produção individual de alguns autores, incluindo o próprio Alexandre O'Neill, que se demarcara, já em 1951, no Pequeno Aviso do Autor ao Leitor, inserido em Tempo de Fantasmas. Nessa mesma obra, sobretudo na primeira parte, Exercícios de Estilo (1947-49), a influência do surrealismo manifesta-se em poemas como Diálogos Falhados, Inventário ou A Central das Frases e na insistência em motivos comuns a muitos poetas surrealistas, como a bicicleta e a máquina de costura. Na segunda parte da obra, Poemas (1950-51), essa influência, embora ainda presente, é atenuada, como em No Reino da Dinamarca (1958) e Abandono Vigiado (1960).




Alexandre O'Neill escreveu Tempo de Fantasmas (1951), No Reino da Dinamarca (1958), Abandono Vigiado (1960), Poemas com Endereço (1962), Feira Cabisbaixa (1965), De Ombro na Ombreira (1969), Entre a Cortina e a Vidraça (1972), A Saca de Orelhas (1979), As Horas Já de Números Vestidas (1981), Dezenove Poemas (1983) e O Princípio da Utopia (1986). A sua obra poética foi ainda recolhida em Poesias Completas, 1951-1984. Foi ainda editada uma antologia, postumamente, com o título Tomai Lá do O'Neill (1986). Publicou dois livros em prosa narrativa, As Andorinhas não Têm Restaurante (1970) e Uma Coisa em Forma de Assim (1980, volume de crónicas), e as Antologias Poéticas de Gomes Leal e de Teixeira de Pascoaes (em colaboração com F. Cunha Leão), de Carl Sandburg e João Cabral de Melo Neto. Gravou o disco «Alexandre O'Neill Diz Poemas de Sua Autoria». Em 1966, foi traduzido e publicado na Itália, pela editora Einaudi, um volume da sua poesia, Portogallo Mio Rimorso. Recebeu, em 1982, o Prémio da Associação de Críticos Literários.
Em 1976, sofre um ataque cardíaco, que o poeta admitiu causado pela vida desregrada que sempre tinha. No início dos anos 80, já divorciado de Teresa Gouveia, repartia o seu tempo entre a casa e a Rua da Escola Politécnica e a Vila de Constância. Em 1984, sofreu um acidente vascular cerebral. Faleceu em Lisboa, em 31 de agosto desse ano.
A 10 de junho de 1990 deram-lhe, em homenagem póstuma, o título de Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'lago da Espada.

 
  
AOS VINDOUROS, SE HOUVER
 
Vós, que trabalhais só duas horas,
a ver a trabalhar a cibernética,
que não deixais o átomo a desoras
na gandaia, pois tendes ética;
 
Que do amor sabeis o ponto e a vírgula
e vos engalfinhais livres do medo,
sem peçarios, calendários, pílula,
jaculatórias fora, tarde ou cedo;
 
Computai, computai a nossa falha
sem perfurar demais vossa memória,
que nós fomos pr' aqui uma gentalha
a fazer passamanes com a história;
 
Que nós fomos (fatal necessidade)
quadrúmanos da vossa humanidade.


** ** *
  
O AMOR
 
O amor é amor - e depois?
vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...
 
O meu peito contra o teu peito
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há o espaço para amar!
 
Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos - somos um? somos dois?
espírito e calor!
 
O amor é o amor - e depois?





Eliana (Shir) Ellinger
 
Fontes de pesquisa:
 



AFONSO FÉLIX DE SOUSA


AFONSO FÉLIX DE SOUSA
(1925 - 2002)
 
 
 
Afonso Félix de Sousa, filho de Raul Félix de Sousa e Franciaca Amorim Félix, nasceu em Jaraguá, Goiás, em 5 de julho de 1925. Aos nove anos mudou-se para Pires do Rio (GO), onde seu pai foi exercer o cargo de agente fiscal de rendas estaduais.
Fez os estudos primários em sua terra natal, o ginásio no Colégio Nossa Senhora Mãe de Deus, em Catalão (GO) e no Ginásio Anchieta de Bonfim, hoje Silvânia-GO e  concluiu o segundo grau no Lyceu de Goiânia.
Em 1942, Afonso Félix publicou os primeiros poemas no jornal Voz Juvenil,  do Ginásio
Anchieta. No ano seguinte, mudou-se para Goiânia, onde iniciou sua atividade literária, colaborando em jornais como O Popular , A Folha de Goiás e na revista Oeste. Em 1946, fundou a Associação Brasileira de Escritores (sessão de Goiás)

sendo eleito, no Rio de Janeiro, secretário da ABDE, quando era Presidente o romancista Graciliano Ramos.




Em 1953, foi contemplado com bolsa de estudos para um curso de especialização em economia na École Pratique des Hautes Études, da Sorbone, em Paris. Dois anos depois, retorna ao Brasil. Designado pelo Ministro das Relações Exteriores e pelo Banco do Brasil, em 1970, Afonso Félix foi adido na Embaixada Brasileira, em Beirute.
Em 1975, aposentou-se no Banco do Brasil, onde trabalhou muitos anos nos setores de câmbio e comércio exterior. Então, passou a residir em Chicago a partir de 1986.
Sua estréia em livros foi O Túnel, coletânea de poemas editada pela revista Orfeu, em 1948.
Em 1999, teve sua obra Íntima Parábola incluida por um seleto juri e escolhido pelo jornal 'O Popular' , de Goiânia, entre os 20 livros mais importantes do século XX, em Goiás. 




Afonso Félix fundou as revistas 'Agora'  e 'Ensaio' , a Assossiação Brasileira de Escritores e Assossiação Nacional de Escritores. Recebeu os Prêmios: Olavo Bilac, do Departamento de Cultura da Secretaria de Educação do então Distrito Federal, em 1957, com o livro Íntima Parábola; Prêmio Alvares de Azevedo, da Academia Paulista de Letras, em 1960, com o livro Íntimas Parábolas; Prêmio Tioco, da União Brasileira de Escritores, seção Goiás, em 1979, com o livro Antologia Poética; Prêmio de poesia do Pen Club do Brasil, em 1981, com a coroa de sonetos A Engrenagem do Belo; Prêmio Jaburu, do Conselho Estadual de Cultura de Goiás, em 1990, como 'Personalidade do Ano'; Prêmio Nacional de Poesia 2001 da Academia Brasileira de Letras. 
Afonso Félix foi casado com a poetisa Astrid Cabral e irmão dos escritores Domingos e Aída Félix de Souza. Faleceu no Rio de Janeiro, dia 07 de setembro de 2002.


 SONETO ELEMENTAR
 
Nos recantos tranquilos encontrava
a poesia. Sobre mim e o rio
debruçavam-se as árvores. Os pássaros
eram ecos nos seus primeiros cantos.
 
Ruas de chuvas leves, nunca o inverno.
Com o menino brincar vinhas as tardes
e vinha o céu. Adeus, nuvens cinzentas
onde vagam os monstros meus da infância.
 
Já não vibram as músicas ingênuas
na planície escutadas. A poesia
difícil se tornou e vive em sombras.
 
Em mim que tanto amei hoje às palavras
movem-se para as ásperas mensagens
e vão morrer na incompreensão dos gestos.
 
** ** **
 
SONETO DO REENCONTRO
 
Nada mais esperar, se o sentimento
que um dia escravo e deus de mim fizera,
é hoje o doce e amargo no alimento
a alimentar quem sou com quem eu era.
 
E nunca o fui, senão em pensamento.
Nada mais a esperar? - Mas clama a espera no fundo
do que sonho, quero e invento
com o que resiste, em mim, ao anjo e à fera.
 
Oh, não mais esperar! - E o desespero
seria em minha voz, como em meus braços,
a espera mais total, do prisioneiro
 
Que, encerrado em si mesmo, sente o espaço...
Que inteiro está o amor no derradeiro
pedaço deste amor que despedaço.
 


Eliana (Shir) Ellinger
 

Fontes de Pesquisa: